A divisão injusta do trabalho do cuidado e o sofrimento invisível de quem cuida
TEXTO: ROSE SERAFIM
FOTO: ZEROSA FILHO
Aos 55 anos, a auxiliar de serviços gerais Antônia Maria acaba de retornar ao mercado de trabalho. Desde 2024, ela havia largado o emprego para cuidar do pai idoso que sofria de alzheimer, uma doença neurodegenerativa grave.
“Fui passar um um mês de férias no interior. Cheguei lá e vi as condições dele. Minha irmã que cuidava. E ela, minha irmã estava com uns problemas, aí eu acabei trazendo ele [de Camocim para Fortaleza] para cuidar”, conta.
Coube à Antônia, dentre 11 irmãos, assumir o cuidado com o pai. Ela relata que uma pneumonia com longa internação debilitou ainda mais o idoso. Com pouco espaço na casa, na qual divide com duas filhas, instalou o pai na sala, onde passou dois anos acamado até falecer, em janeiro deste ano. “Tirei tudo da sala e botei a cama dele e cuidei. Não me arrependo. Eu faria tudo de novo se fosse para fazer”, relembra.
Ela fala sobre as dificuldades enfrentadas: “só Deus sabe quantas noites eu chorava, querendo dormir, não conseguia dormir e vendo meu pai gritando, gritando. Eu chegava perto da cama dele, ele segurava na minha mão, e dizia: “minha filha, eu te amo”. “Meu pai também lhe amo”.
Não foi a primeira vez que a auxiliar de serviços gerais precisou assumir todas as responsabilidades do cuidado. Aos 38 anos, com duas filhas pequenas, ela se divorciou do marido e precisou buscar trabalho fora para custear, sozinha, a vida das meninas.
Ninguém cuida de quem cuida
Dados preliminares de uma pesquisa realizada em Fortaleza apontam que as mulheres dedicam mais de 10 horas diárias ao cuidado de crianças, idosos e pessoas com deficiência. Elas enfrentam sobrecarga física e emocional e sofrem com a falta de apoio das instituições. A pesquisa “O trabalho de cuidado no São João do Tauape” está sendo conduzida em parceria entre a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Secretaria do Trabalho do Estado do Ceará (SET) e a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
O mapeamento local indica que 99,88% das pessoas que exercem esse tipo de trabalho são mulheres, e mais da metade (54,13%) o fazem sozinhas, sem rede de apoio. Ainda segundo o levantamento, 61,12% das cuidadoras não recebem nenhum tipo de remuneração.
A vida da autônoma Juliana Teixeira mudou completamente quando ela se tornou mãe dos gêmeos Isaac e Abraão. Os meninos, agora com 8 anos, têm Transtorno do Espectro Autista (TEA) com nível dois de suporte. Para acompanhar as terapias, cuidar das crianças em casa e dos próprios afazeres domésticos, ela precisou destinar apenas dois dias da semana ao trabalho como depiladora e esteticista.
“Fico com eles pela manhã, administro os cuidados na hora da alimentação, de banhar, de ensinar o dever, de estimulá-los, de alguma maneira, eu tento trabalhar o que fazem nas terapias. No dia a dia, eu oriento eles a tomar banho sozinhos, eu peço para eles se vestirem, eu peço para eles comerem sozinhos”.
O pai dos meninos é professor e ajusta os horários para cuidar das crianças duas vezes por semana. Ele, a mãe dela e a escola formam a rede de apoio que Juliana consegue contar.
“Não é romântico, é muito trabalhoso, muito. A gente sente que a sociedade ainda precisa estar mais presente com a gente. Porque uma vez eu escutei uma frase que a gente precisava de uma aldeia, né? Para cuidar de uma criança. Nossa, no meu caso, eu preciso de duas aldeias e eu não tenho nenhuma”.

A defensora pública Rayssa Cristina Santiago destaca que o trabalho do cuidado exaure as mulheres físico e emocionalmente, principalmente quando elas têm que lidar sozinhas com pessoas que amam em situação de fragilidade.
“Isso faz com que essas mulheres também entrem em um processo psicológico delicado que, muitas vezes, é silencioso, porque ela não pede ajuda, pois ela já está ajudando o outro e não tem quem a ajude. Então, são mulheres que precisam ser vistas para que elas também se fortaleçam no meio desse desafio de cuidar de alguém”.
A terceirização do cuidado
Existe o trabalho do cuidado remunerado e o não-remunerado. Muitas pessoas, principalmente mulheres, o fazem das duas formas. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2022, mostra que, quanto mais pobre uma mulher, mais tempo ela passa fazendo trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
O trabalho doméstico remunerado permite que outras pessoas, principalmente homens e mulheres de classes mais abastadas, consigam acessar o mercado profissional. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2008 apontam que são mulheres pobres, afrodescendentes e indígenas que vão para as zonas urbanas e ocupam as vagas de trabalho doméstico.
Essas mulheres trabalhadoras domésticas são remuneradas mas, em geral, não atingem renda suficiente que lhes permita contratar outra pessoa para cuidar da casa delas. Segundo a PNAD Contínua do IBGE de 2022, as mulheres negras concentram 39,5% das horas de cuidado e recebem apenas 14,9% da renda.
A diarista Hila Marcia dos Santos, de 49 anos, vive no bairro Jangurussu e oferece faxinas em diversos bairros de Fortaleza. A necessidade a fez começar a trabalhar muito cedo. Com apenas 12 anos de idade, assumiu o trabalho doméstico na casa de uma família onde também morava.
Foi com o sustento do trabalho doméstico que criou os três filhos. Atualmente, ela tem faxinas fixas, de 8h diárias, de segunda a sábado. Nesses locais, limpa, cozinha e até cuida de plantas. Depois disso, e mesmo dividindo a casa com o marido já aposentado, é Hila sozinha que, novamente, cozinha, limpa, cuida das roupas e resolve os problemas. “Eu acho que se ele [o marido] cuidasse mais da casa eu teria mais tempo para descansar”, reclama Hila.
O que mais a entristece é não conseguir tempo para fazer nada além de cumprir obrigações: “eu também queria, tipo assim, poder passear, conhecer os lugares, viver. Eu estou viva, mas não vivo”.

A defensora Rayssa Cristina Santiago exemplifica essas situações com o filme “Que horas ela volta?”, de 2015. No longa, a Val é uma empregada doméstica que mora na casa dos patrões e que precisou deixar a filha no interior, com parentes, para buscar o sustento da menina em outra cidade. “Essas mulheres na maioria das vezes são mulheres periféricas, pretas, nordestinas”, destaca.
“Esse ciclo de desigualdade em que ela não sai por escolha ou para aumentar o salário e a renda familiar dessa casa, mas sim porque a única forma de custeio é estruturalmente muito associado a questões raciais e a questões socioeconômicas”.
A defensora aponta que o Estado tem um papel indispensável em promover condições melhores a essas mulheres. Desde creches e escolas adequadas para receberem os filhos ao apoio de instituições como a Defensoria do Ceará para a busca de direitos delas e dos filhos.
“É um ciclo que precisa ser quebrado não só através da visualização desse sistema, mas por múltiplos fatores, como aumentar os alimentos nesses casos, para que o genitor que é ausente. Este fator pode contrabalancear a ausência econômica e ajudar para que essa mulher não precise trabalhar exaustivamente, para consiga voltar mais cedo para casa e ficar com os seus filhos”.
Divisão Justa do Trabalho Doméstico
Nas zonas rurais, muitas mulheres, além de não reconhecerem o que fazem em casa como trabalho, acabam invisibilizadas também nas atividades fora de casa. Para as agricultoras, em especial, a ideia de que o trabalho delas nos roçados e na lida do campo é uma “ajuda” pode dificultar o acesso inclusive a direitos como a aposentadoria rural.
Organizações da sociedade civil que trabalham com projetos destinados a esse público, tiveram essa percepção e montaram a campanha “Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico”, com o lema “Direitos são para mulheres e homens, responsabilidades também!”. A campanha foi lançada em vídeo e folders por dezenas de organizações sociais em 2014 e é trabalhada nos projetos de agricultura familiar.
“A gente precisava primeiramente conversar com essas mulheres e mostrar que não é natural a sobrecarga de trabalho que nós mulheres temos, é algo socialmente construído. A gente passou a trabalhar no sentido de conscientizar as mulheres de que aquilo ali era uma construção social injusta da divisão sexual do trabalho”, conta a socióloga Deninha Maia, assessora técnica e coordenadora de projetos no Esplar Centro de Pesquisa e Assessoria.
O público inicial era o de agricultoras, mas depois foi percebida a necessidade de levar a campanha também para outras mulheres: “percebemos que a história se repetia quando se tratava também das professoras, das merendeiras, das agentes de saúde, e de tantas outras”.
A campanha trouxe resultados, aponta Deninha Maia.“Muitas das mulheres dos grupos passaram a incidir dentro dos sindicatos, dentro das associações comunitárias, nos grupos produtivos. Porque passaram a ter mais tempo e passaram a entender que a obrigação de fazer a comida em casa não é só delas. Eu não preciso ser a única a colocar a comida, por exemplo, no prato do marido quando ele chegar. Se ele chegar para comer ou não tiver em casa, ele mesmo pode se servir. Então, isso passou a ser relatado por elas nas oficinas [de formação dos projetos]”.


Segundo a defensora pública Rayssa Cristina Santiago, é preciso combater a ideia da vocação feminina para o cuidado. “O combate a essa violência, ele pode ser feito através desse letramento, dessa educação de direitos e desse trabalho diário de pensar e repensar o nosso papel na sociedade, como que a gente pode transformar, como pequenas ações de feminismo de fortalecimento das mulheres em cadeia pode transformar isso”, finaliza a defensora.
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