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Ludopatia: quando “joguinhos” e apostas viram doença e põem em risco a sobrevivência de quem joga (e da família inteira)

Ludopatia: quando “joguinhos” e apostas viram doença e põem em risco a sobrevivência de quem joga (e da família inteira)

Publicado em
Texto: Bruno de Castro
Ilustração: Diogo Braga

“Jogo do Tigrinho é o novo crack”.
“Brasileiro pobre troca comida por apostas on-line”.
“Viciados em apostas relatam perdas milionárias”.
“Brasileiros trocam faculdade por ‘tigrinho’”.

 

Publicações desse tipo estão cada vez mais comuns na imprensa e nas redes sociais. O impacto dos jogos virtuais de azar é hoje tão grande que preocupa até o poder público, tamanho o risco que representam. Sejam eles esportivos, popularmente chamados de BETs, ou de cassino, como o famoso Tigrinho, esses aplicativos/sites já movimentam em torno de R$ 120 bilhões por ano só no Brasil. E colocam em perigo o orçamento de famílias inteiras, pois prometem a ilusão de se ganhar dinheiro fácil enquanto, na verdade, adoecem as pessoas com algo clinicamente diagnosticado como ludopatia, causando prejuízos às vezes milionários.

Por isso, é preciso cuidado para não acabar entrando no grupo dos superendividados. Estima-se hoje a existência de pelo menos 50 milhões de brasileiros(as) nessa situação. “São pessoas que não têm o mínimo existencial; o básico do básico para viverem. Diferente do superendividamento convencional, que vai surgindo com o tempo, o que esses jogos fazem é criar um superendividamento repentino. É preciso cuidado”, pontua a defensora Amélia Rocha.

A problemática, porém, não se restringe a questões financeiras. Supervisora do Núcleo de Atendimento da Defensoria Pública da Infância e da Juventude (Nadij), Noêmia Landim alerta para a possibilidade de, no caso de famílias com filhos(as), as dívidas serem tão grandes ao ponto de comprometerem direitos dessas crianças e desses adolescentes. “Em casos extremos, em que os filhos sejam deixados em situação de vulnerabilidade, os pais podem até perder a guarda, se comprovado estado de negligência e abandono”, frisa a defensora.

Não é exagero, então, falar em cuidado diante dessas plataformas de jogos. Quem acompanha a situação de perto, garante: elas têm feito muita gente apostar tudo o que tem. Tudo mesmo. “E eu não estou falando só do adolescente que saca a parcela do pé-de-meia [programa de transferência de renda do Governo Federal para estudantes do ensino médio público] ou do idoso que perde a aposentadoria inteira do mês. Me refiro a pessoas adultas ou de meia idade, com seus 47 anos, que tinham poupança de 380 mil reais, 450 mil reais, 780 mil reais, um milhão e meio de reais, e ficaram sem nada. Falo de pais e mães de família que já tinham uma casa quitada e foram ao banco refinanciar o imóvel pra ter dinheiro pra jogar. Nós estamos diante de uma situação muito grave e que tem sido banalizada”, alerta a psicóloga Juliana Fernandes.

A compulsão por BETs, Tigrinho e similares é mais do que uma simples diversão. A ludopatia, o desejo incontrolável de jogar, tem até classificação internacional (CID) reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). E não é de agora. Data de 1980. A diferença é: com o acesso cada vez mais facilitado à Internet, com a divulgação insistente feita por influenciadores digitais e grandes empresas de comunicação, e com a facilidade de jogar sem fazer deslocamentos, o que antes era restrito a quem tinha algum poder aquisitivo para ir a um cassino/bingo passou a afetar todas as idades em todos os contextos e classes sociais.

ILUSÃO PERIGOSA
A lógica dessas plataformas é até simples: iludir a pessoa a apostar mais e mais, fazendo-a acreditar que quanto mais ganha ou perde, mais ela deve investir para aumentar o lucro ou recuperar o prejuízo. O que não é simples é sair da jogatina, que já arrecada o equivalente à soma de todas as riquezas produzidas nos estados do Piauí, Roraima, Amapá e Acre juntos. A título de comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará é de R$ 250 bilhões. Isso significa dizer que: os jogos virtuais de azar já representam quase metade da nona maior economia brasileira.

Com as empresas ganhando muito dinheiro e milhões de pessoas endividadas, o Governo Federal instituiu mecanismo recente para regular este mercado. Criou uma secretaria especializada para lidar com o tema e, com uma lei sancionada em janeiro, as empresas devem pagar tributos e estarem alinhadas às legislações, incluindo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), caso desejem operar no país.

Toda essa situação foi se agravando com o fim da pandemia, período no qual o uso de celulares e outras tecnologias foi intensificado pelo isolamento social. Além disso, uma Medida Provisória assinada pelo então presidente Michel Temer, em 2018, autorizava este tipo de operação no Brasil, mas sem regulação. Entre fevereiro e julho deste ano, estima-se que só as BETs atraíram 25 milhões de novas pessoas – sobretudo mulheres (62%) e de classe média-baixa (84%), conforme estudo do Instituto Locomotiva.

“Há um descontrole pra parar de jogar. A pessoa reserva 30 reais e, quando vê, gastou o da janta. Ela ganha 50 mil reais num dia, perde 150 mil reais no dia seguinte e quer continuar jogando pra recuperar o prejuízo. Mas não recupera. Tenho paciente que o pai precisou se desfazer de uma fazenda e a mãe teve que vender a casa. E as demandas só aumentam. Isso vai abalar várias estruturas financeiras e mudar até a cultura relacional, porque a vida social dessas pessoas muda, já que elas não têm mais dinheiro para irem a um restaurante. A economia já está sentindo isso. E essa é uma realidade que não volta mais. A gente agora tem que olhar pra frente, porque o problema surge muito rápido e é tudo muito intenso. Em um semestre, a situação sai do controle. Quando a pessoa reconhece, ela já está afundada em dívidas”, acrescenta a psicóloga Juliana Fernandes.

FUNÇÕES DO ESTADO E DOS PAIS
Atuante no Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) da DPCE, Amélia Rocha foi uma das primeiras figuras do sistema de justiça brasileiro a alertar para os riscos do superendividamento por estudar a temática há anos a partir do que vive nos atendimentos como defensora. “São cada vez mais comuns os casos. E nunca são casos fáceis. Nada é simples quando se fala deste assunto. Por isso, o Estado precisa agir para impedir algumas situações”, analisa a estudiosa do assunto.

Diante da democratização dos riscos sociais desses jogos virtuais de azar, é necessário também observar os reflexos sobre os mais jovens – que podem até não contrair grandes dívidas, mas há a chance de sofrerem sequelas psicológicas tão nocivas quanto. “Eles [os jogos] representam risco, uma vez que podem levar a problemas de dependência, impactando negativamente seu desenvolvimento físico, emocional e social das crianças e adolescentes. Além de que pode aumentar a propensão para diversos tipos de vícios”, frisa a defensora Noêmia Landim.

Ela prossegue: “no que diz respeito às pessoas que comprometem o patrimônio nesses jogos, é fundamental ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que é dever dos pais, mães e responsáveis prover as condições necessárias para uma vida digna e saudável aos filhos. Portanto, é imprescindível que essas pessoas estejam cientes dos potenciais impactos negativos de suas ações nos direitos básicos das crianças e adolescentes, como alimentação, moradia, educação e saúde.”