O peso que não aparece: mulheres sustentam uma jornada que o Brasil ainda não enxerga
TEXTO: DEBORAH DUARTE
FOTOS: ZE ROSA FILHO
Há uma economia que não aparece nos relatórios oficiais, mas sustenta todas as outras. Ela começa antes do expediente e termina quando o dia já deveria ter acabado. É silenciosa, contínua e, quase sempre, feminina.
Às cinco da manhã, Lúcia já está de pé. Antes mesmo de o sol nascer, o dia dela já começou. Prepara o café, organiza a casa, coloca roupa de molho, deixa o almoço encaminhado. Acorda a filha de seis anos, ajeita tudo para a escola, pega a bicicleta e segue. Depois que deixa a filha na escola, mais um dia de trabalho a espera na copa da sede administrativa da Defensoria Pública. Ao meio-dia, no intervalo do expediente, refaz o caminho: busca a filha, volta para casa, serve o almoço e retorna ao trabalho. Agora com a menina ao lado.
“Às vezes eu nem dormi direito. Mas acordo, faço o almoço, ajeito a casa, deixo tudo pronto”, conta. Há 15 anos na instituição, Lúcia conhece cada corredor e carrega uma outra jornada que não cabe no relógio de ponto.
A história dela não é exceção. É regra. Dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que mulheres dedicam, em média, 21 horas e 36 minutos por semana ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, enquanto os homens dedicam 11 horas e 48 minutos. A diferença é de cerca de 10 horas semanais a mais, um turno inteiro de trabalho invisível.
Essa divisão desigual ainda varia conforme idade, renda e escolaridade, mas segue mantendo um padrão persistente: o cuidado continua recaindo, majoritariamente, sobre as mulheres.
Mais do que números, esse tempo tem nome: pobreza de tempo. É quando as horas do dia não são suficientes para dar conta de tudo. Falta tempo para estudar, crescer profissionalmente, descansar ou cuidar da própria saúde. O impacto não é apenas individual, é estrutural.
Essa sobrecarga limita oportunidades, reduz renda e afeta diretamente a qualidade de vida das mulheres, especialmente as mais pobres. Entre aquelas com menor renda, a jornada de cuidado pode ultrapassar 25 horas semanais.
“Na Defensoria Pública, temos buscado incorporar esse olhar nos processos. O cuidado não pode mais ser invisibilizado. Não se trata apenas de discutir valores de pensão, mas de compreender a desigualdade que estrutura essas relações. A sobrecarga que recai sobre as mulheres impacta diretamente suas condições de vida e precisa ser considerada nas decisões sobre alimentos, guarda e responsabilidades parentais. Essa é a realidade de muitas mulheres que chegam à Justiça, trazendo não só demandas jurídicas, mas relatos de cansaço constante e de uma rotina marcada pela sobrecarga”, destaca a defensora pública Michele Camelo, que atua nas Defensorias de Família, em Fortaleza.

A realidade atinge até mesmo as mulheres que rompem barreiras e se tornam as principais provedoras da casa. Pesquisas apontam que elas continuam assumindo a maior parte das tarefas domésticas, como uma forma de “compensar” a inversão dos papéis tradicionais de gênero, um fenômeno conhecido como gender display.
Na prática, isso significa trabalhar mais, dentro e fora de casa. Apesar de invisível, esse trabalho sustenta a economia. No Brasil, a economia formal depende diretamente desse trabalho invisível. Cada mulher que acorda antes de todos para garantir que o dia funcione está sustentando muito mais do que sua própria casa. Está sustentando o país.
Histórias que se repetem – Lúcia conhece bem esse peso. Mãe solo, criou duas filhas praticamente sozinha. A filha mais velha, hoje com 18 anos, também passou a infância e a adolescência indo com a mãe para o trabalho. Houve um tempo em que deixava as crianças trancadas em casa, sob o olhar de uma vizinha. Depois, quando não havia alternativa, levou as meninas para o ambiente de trabalho. Cresceram entre garrafas térmicas, corredores e salas de atendimento.
“Eu me via no desespero, mas precisava. Era eu por elas”, lembra. Hoje, a filha mais velha já é mãe. A mais nova ainda acompanha sua rotina, dividindo o tempo entre escola, projetos e o trabalho da mãe. E o ciclo parece se repetir. Não por escolha, mas por falta de opção. “Quando chego em casa, ainda tem tudo: lanche, tarefa, banho, jantar. A gente só pára quando deita”, diz.
Ela lembra que a filha mais velha saiu de casa ainda muito jovem, aos 13 anos, para morar com o namorado. Hoje, aos 18, já enfrenta os desafios da maternidade. Ao refletir sobre isso, Lúcia enxerga diferenças na criação das duas filhas e deposita na mais nova uma esperança.
“Com a mais velha, o pai fazia tudo que ela queria. Já a Bia não tem isso. Ela tem só o meu amor, o meu exemplo, a minha dedicação. Eu procuro estar presente, dar carinho, educar. Eu acredito que vai ser diferente”, diz.
Lúcia precisou recorrer à Defensoria Pública para que o pai da caçula pagasse a pensão de pouco mais de 300 reais, mas a negligência afetiva do genitor é dolorosa. Assim como ela, muitas mulheres buscam a Justiça para que os filhos tenham acesso aos seus direitos básicos. Não há como obrigar um pai a amar um filho, mas a legislação assegura um direito de ser cuidado. E, quando há negligência comprovada, essa pessoa pode responder judicialmente por ter causado esses danos.
O olhar para o cuidado – Diante de realidades como essa, a Defensoria Pública do Estado do Ceará passou a olhar também para dentro de sua própria estrutura.
“Sabemos que muitas mulheres não têm com quem deixar seus filhos. Permitir essa convivência no ambiente de trabalho é, antes de tudo, reconhecer essa realidade e não penalizar quem já carrega uma sobrecarga enorme. É, muitas vezes, uma medida de acolhimento diante da ausência de políticas públicas suficientes”, destaca a defensora pública geral do Ceará, Sâmia Farias.
Segundo ela, foi a partir da escuta dessas vivências que a instituição criou o projeto Entre-Laços, uma iniciativa voltada ao cuidado e à valorização de quem faz a Defensoria acontecer todos os dias. “Lançamos o projeto Entre-Laços e estamos viabilizando um espaço de convivência e acolhimento para colaboradoras e colaboradores. Uma forma concreta de transformar o cuidado em política institucional”, completa. No mês de março, a Defensoria lançou luz a discussão sobre economia do cuidado, com a campanha “Elas sentem o peso”, na qual essa série faz parte.
Histórias como a de Lúcia revelam que a sobrecarga feminina não é resultado de escolhas individuais. É consequência de uma estrutura social que naturaliza o cuidado como responsabilidade das mulheres, e se sustenta nisso.
Confira as outras matérias da série:
A divisão injusta do trabalho do cuidado e o sofrimento invisível de quem cuida
Quando o cuidado vira caso de Justiça: a sobrecarga feminina que bate à porta da Defensoria

